terça-feira, 2 de janeiro de 2018


ATENÇÃO, SENHORAS E SENHORES!


" Em instantes apresentaremos um fragmento de Cenopoética QorpoSantense, 
com a Oficina Teação Teatro Educação e Transformação Social. O Projeto está 
acontecendo na cidade desde maio/2015 e abrange muitas outras oficinas. Faz
 parte de um Programa do Governo Federal via Secretaria da Assistência Social/
CREAS e tem a gestão da CNEC São Jerônimo... 


UM TRABALHO COLETIVO QUE ESTÁ DANDO CERTO! 
TEATRAR, DANÇAR, MUSICAR OU ARTISTAR... 
É NA PRÁTICA, SE VIVER MAIS LIVRE E FELIZ!





AGRADECEMOS AS PARCERIAS PRESENTES, AOS COLETIVOS CULTURAIS
 E ARTÍSTICOS, A SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA E INTEGRAÇÃO SOCIAL E 
DE CULTURA DE TRIUNFO E A FUNDAÇÃO CULTURAL QORPO SANTO, JUNTO 
A NOSSA OFICINEIRA ALINE FERRAZ, POR ESSE MOMENTO ESPECIAL! 






Apresentação realizada em 25 de outubro de 2015.

QORPO-SANTO RE-CORTADO




O vídeo registra a apresentação da peça "Qorpo-Santo Re-Cortado" , levada à cena pelo grupo teatral da Fundação Cultural Qorpo-Santo, no Theato União, em Triunfo, RS.

O trabalho - idealizado e dirigido pela atriz e diretora de teatro Aline Ancinello Ferraz, responsável pela oficina de teatro ministrada na Fundação - tem roteiro de Odila Rubin de Vasconcelos e foi baseado no livro Cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil.

A estreia ocorreu no dia 15 de abril de 2016, na abertura do "Outonando Qorpo-Santo", em sua 5ª Edição, evento anual da Fundação.

QORPO-SANTO & SUA FUNDAÇÃO


O vídeo, produzido por alunas do curso de jornalismo da UNISINOS, 

coordenadas por Maiara Rybar, além de falar sobre  o controverso 

teatrólogo e sua obra,  traz à cena algumas das finalidades da 

Fundação Cultural Qorpo-Santo. 


Hoje Sou Hum; Amanhã Outro



A peça é de autoria de Qorpo Santo, escritor, dramaturgo, poeta, jornalista, professor. Alguns artistas fazem arte, outros fazem objetos artísticos e uns poucos, se tornam eles próprios Arte. Estes são inevitavelmente taxados de loucos.

O que se pode afirmar de Qorpo Santo é que era um inconformista. Reinventou a escrita, escreveu uma enciclopédia, um evangelho e rebatizou-se numa insurreição excêntrica. Loucas certamente ficaram as pessoas da sociedade de sua época. O homem e a obra colocam em cheque as relações sociais, familiares, a política e a moral. Seu teatro escrito há 150 anos ainda é o fato mais extraordinário produzido nas artes cênicas do nosso Estado.

A peça trata sobre as relações de poder e suas tramas. Situada dentro do Palácio de um reino imaginário, enquanto o povo está se matando lá fora. Entre paranoias de conspiração e o ataque de outra nação, tudo muda para não mudar e o poder se perpetuar. O texto tange a farsa e vai da ironia fina ao sarcasmo, revelando sua modernidade e o paralelo inevitável aos dias atuais.
O espetáculo Hoje Sou Hum; Amanhã Outro - de Qorpo Santo (1829 - 1883), surge com o desafio de montar um texto do autor, na íntegra, estabelecendo paralelos com a atualidade. No âmbito da estética do 'nonsense'. Está centrado no trabalho de atuação a partir da pesquisa do teatro físico. O cenário é simplista e realista, assim como os figurinos, porém, estes são colocados em contraste com o uso inusitado dos elementos. Assim como o cenário, que é movimentado pelos atores durante o espetáculo, transformando-se em diversos ambientes de um mesmo lugar.

O processo de trabalho traz elementos da pesquisa de pantomima, da 'farsa', do jogo entre as personagens, além de, inspirações em 'gags' circenses, no grotesco e no absurdo. A iluminação trabalha com geral branca e âmbar, tendo poucos focos em determinados momentos, para realçar personagens e/ou momentos e elementos. Há também o uso de projeção marcando o diálogo com a tecnologia contemporânea. A música é original sendo utilizadas algumas sonoplastias digitalizadas em momentos específicos. Da construção do espetáculo participaram Júlio Saraiva (direção) e Gutto Basso (criação musical). Bem como, Aline Ferraz, Renan Leandro, Edgar Alves e Vicente Goulart, que também participam da encenação.
O espetáculo ‘Hoje Sou Hum; Amanhã Outro.' de Qorpo Santo fez sua primeira temporada de 14.01.2014 à 30.01.2014 na Cia. de Arte Centro Cultural. Seguintes apresentações: Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mário Quintana de 28/02 à 16/03 de 2014. Sala Álvaro Moreyra de 28/03 à 13/04 de 2014. Teatro União (Triunfo/RS) em 24/04/2014. Circuito Rio Grande no Palco/SESC-RS em Julho de 2014, em Gravataí, Santa Rosa, Santa Maria e Venâncio Aires. Teatro de Arena de 07 à 23 de Novembro de 2014. www.putadiabo.blogspot.com.br

Diretor relembra primeira montagem conhecida do teatro de Qorpo-Santo


POR FÁBIO PRIKLADNICKI

Antônio Carlos de Sena, 72 anos,  fala sobre o espetáculo 

 que estreou em 26 de agosto de 1966, no Clube de Cultura, 

em Porto Alegre.




O elenco se reúne para uma  leitura do texto de Qorpo-Santo




No depoimento a seguir, concedido em sua casa no bairro Santa Tereza, em Porto Alegre, o diretor teatral Antônio Carlos de Sena, 72 anos, lembra a história da primeira montagem conhecida do teatro de Qorpo-Santo.
O espetáculo estreou em 26 de agosto de 1966, no Clube de Cultura, em Porto Alegre, 
e apresentava três textos do autor, cem anos após terem sido escritos: As Relações Naturais,
 Eu Sou Vida; Eu Não Sou Morte e Mateus e Mateusa. Dois anos depois, uma remontagem 
foi apresentada no Rio, marcando a descoberta de sua obra em nível nacional.
Versos no Mocho
"Eu era amigo do Aníbal Damasceno Ferreira desde a infância porque ele era meu vizinho no
 bairro  Azenha. Eu fazia teatro de bonecos, e o Aníbal era um estudioso autodidata da literatura 
gaúcha,  atividade que o levou a descobrir autores que citavam Qorpo-Santo, mas sem 
conhecerem
 sua obra.
 Ele aparecia nessas citações como um tipo popular, meio amalucado e autor de versos que
 andavam pela Capital de boca em boca. Na década de 1950, o Aníbal começou a publicar esses 
versos no Mocho, nosso jornalzinho mimeografado. Também começou a procurar a obra dele, 
mas ninguém a  conhecia."
O resgate dos livros
"No fim dos anos 1950, Aníbal chegou ao bibliófilo Dario de Bittencourt. Tomou emprestados 
três  dos nove volumes escritos pelo Qorpo-Santo. Para divulgá-los, pensou no escritor e professor
 Guilhermino Cesar, a quem repassou os livros. Só que o Guilhermino nunca os devolveu. O que 
achou da leitura? Não se sabe. Em 1963, o professor Fausto Fuser, que havia vindo de São Paulo
 e ficou muito amigo meu e do Aníbal, se propôs a ir à casa dele resgatá-los. Não sabemos com 
quem ele falou, se com um filho, com uma empregada, mas conseguimos levar os três livros para 
o CAD (Curso de Arte Dramática, atual Departamento de Arte Dramática da UFRGS)."
Coincidência inesperada
"Em 1963, Fuser estava ensaiando As Cadeiras, de Ionesco. Eu era assistente de direção. Sentamos
 e abrimos um dos livros do Qorpo-Santo, onde estavam as 17 peças de teatro dele. A primeira, 
Mateus e Mateusa, tem como protagonistas um casal de velhos que quer passar sua mensagem para 
o mundo. Em As Cadeiras, de Ionesco, também há um casal de idosos. Essas quatro personagens 
têm a rabugice elevada à quinta potência. A mensagem final de As Cadeiras vem de um orador, e o
 cara é mudo. Já o final da peça do Qorpo-Santo também tem a moral da história dita por outro 
personagem, que também faz algo sem sentido. Então, evidentemente, nos impressionamos muito 
com a coincidência. Acabou com o Fausto decidindo montar três peças do Qorpo-Santo (Mateus e
 Mateusa, As Relações Naturais e Eu Sou Vida; Eu não Sou Morte, que nós três achamos a melhor 
de todas), mas com o diretor do CAD, Angelo Ricci, proibindo a montagem ao saber que os livros
 haviam sido tirados da casa do Guilhermino Cesar - nós os havíamos mimeografado e devolvido 
para o Dario de Bittencourt."
Em busca de um elenco
"Saí do curso e fui trabalhar no Clube de Cultura como diretor de teatro. E o Aníbal sempre 
insistindo (na montagem do teatro de Qorpo-Santo). Pois, em 1964, comecei a ensaiar com atores
 amadores que andavam pelo clube. Já sabíamos da importância do Qorpo-Santo como precursor, 
com aquela singularidade e com a qualidade teatral dos textos. Então, no início de 1966, fomos à 
diretoria do Clube de Cultura e insistimos para se investir em um elenco de maior expressão, 
profissional. Foi difícil fazer com que aceitassem a proposta. Era caro. Mas o Clube concordou e 
contratamos um elenco extraordinário, especialmente o naipe feminino. A estreia foi em agosto 
de 1966."
"Ou é gênio, ou sou louco"
"O Guilhermino, que já havia voltado depois de passar um tempo na Europa, foi convidado a
assistir a um ensaio adiantado, para poder escrever a respeito. Foi e se entusiasmou. E escreveu
mesmo um artigo para o  Correio do Povo. Antes disso, o Aníbal distribuiu cópias das três peças 
para vários intelectuais e artistas de Porto Alegre para que se manifestassem. Nenhum se 
manifestou. Mas, depois do artigo do  Guilhermino, e da própria estreia da montagem - vista 
por todos esses intelectuais, artistas, jornalistas -, a curiosidade em torno do nome do Qorpo-Santo
 aumentou. Em um momento ele era  tido como louco, daqui a pouco já estavam dizendo que ele
 era precursor do teatro do absurdo! Foi  quando o Guilhermino assumiu mesmo (a causa). Foi 
para o palco e disse assim: "Ou Qorpo-Santo é um gênio ou eu sou louco."
Nervosismo e consagração
"O Aníbal ia fazer uma ponta, mas, de tão nervoso, não a fez. E eu tive que entrar em cena. Foi uma
 noite muito tensa e importante, sabíamos que assim seria. No final, houve um debate acaloradíssimo.
 Era a primeira vez no mundo que se encenava Qorpo-Santo! No dia seguinte, saiu uma página 
praticamente inteira na Folha da Tarde com uma crítica do Walter Galvani endeusando o espetáculo.
 Da mesma forma, quando levamos o espetáculo ao Rio - depois de ele ficar uma temporada no 
Teatro de Equipe, em Porto Alegre -, o Yan Michalski, crítico mais conceituado do Brasil à época, 
ficou entusiasmadíssimo. Disse que o Qorpo-Santo era o precursor do teatro do absurdo e que a 
história da literatura dramática no Brasil, talvez no mundo, teria que ser modificada a partir daquela
 noite. Aquele marketing entre a intelectualidade se repetiu no Rio. E deu certo. Pena que o Aníbal, 
de tão nervoso, tenha perdido a estreia carioca. Perdeu um momento histórico."
Montagem profissional
"Uma coisa que me deixa brabo: muitos estudiosos dizem que a estreia foi apresentada por alunos
 do  CAD. Não é verdade. Muitos dos contratados tinham sido alunos do CAD, sim, mas já eram 
profissionais. A música original, extraordinária, foi composta pelo Flávio Oliveira. Foi uma 
montagem profissional."

FONTE: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia 2013

O lugar de Qorpo-Santo no discurso crítico

A história da recepção crítica da obra de Qorpo-Santo tem sido a história de sua assimilação a um aparato teórico-poético estranho e anacrônico a ela. Desde sua redescoberta, cem anos após a publicação das peças, o autor gaúcho tem sido lido à luz de correntes europeias modernas, como o teatro do absurdo e o surrealismo, em uma estratégia discursiva que o aliena de seu país e de sua época. A reflexão é oportuna porque, neste 2016, são celebrados os 150 anos da dramaturgia de Qorpo-Santo (suas 17 peças, uma delas inconclusa, foram todas escritas entre janeiro e junho de 1866) e os 50 anos da primeira encenação de sua obra, com a histórica montagem do diretor Antônio Carlos de Sena, em 1966, para três textos (As relações naturais, Eu sou vida; eu não sou morte e Mateus e Mateusa) no Clube de Cultura, histórico reduto de esquerda localizado no bairro Bom Fim, em Porto Alegre[1]. Dois anos depois, o grupo se apresentou no Rio, representando o reconhecimento nacional do escritor, saudado pelo crítico Yan Michalski como um marco que merecia uma reescrita da dramaturgia nacional.
A redescoberta de sua obra se deu em meio à ascensão do “teatro do absurdo”, como o crítico Martin Esslin se referiu à produção de autores como Beckett, Ionesco e Adamov, que por sua vez traduziam a busca de sentido do mundo pós-guerra em uma escrita que colocava em xeque os limites da linguagem com notas de nonsense. Havia notáveis semelhanças entre Mateus e Mateusa, de Qorpo-Santo, e As cadeiras, de Ionesco. Tudo isso alçou o brasileiro à categoria – pretensamente elogiosa – de “precursor do teatro do absurdo”. Posteriormente, o pesquisador Eudinyr Fraga – um dos grandes divulgadores da obra de Qorpo-Santo, tendo organizado uma edição de seu teatro completo – procurou associá-lo ao surrealismo.
Valendo-se de um método que tem algo de arqueológico, uma vertente recente e promissora dos estudos qorpo-santenses tem procurado reinserir o autor na história da cultura e do pensamento nacionais
Esta oposição binária expressa no título de um livro-ensaio de Fraga – surrealismo ou absurdo? – pauta até hoje a recepção crítica da obra teatral do autor, em que pese esforços isolados em outras direções, como a proposta da pesquisadora Denise Espírito Santo de associá-lo a “uma vertente do desvio e da negatividade”[2] do romantismo de um Bernardo Guimarães ou de um Álvares de Azevedo, aproximando-o do que Antonio Candido chamou de “poesia pantagruélica”.
Embora as referências europeias tenham exercido papel importante na fixação do nome de Qorpo-Santo na dramaturgia brasileira, como sustentações aparentemente sólidas inclusive para projetá-lo internacionalmente (o que ocorreu apenas em citações isoladas), a distância temporal proporciona uma visada crítica sobre aquele projeto teórico. Valendo-se de um método que tem algo de arqueológico, uma vertente recente e promissora dos estudos qorpo-santenses tem procurado reinserir o autor na história da cultura e do pensamento nacionais. Trocando em miúdos, trata-se de entender Qorpo-Santo como um autor brasileiro do século 19 que fazia jus a práticas então em voga, como o gosto pela comédia, embora dono de uma dicção singular que o torna um ponto fora da curva.
Exemplo de crítica ao discurso do pionerismo é oferecido por Luís Augusto Fischer em um ensaio sobre o dramaturgo:
É grande a tentação colonizada de tentar inscrever um dos nossos entre os grandes, ainda mais como precursor, a Europa mais uma vez se curvaria ante o Brasil, etc. País colonizado tende a buscar sempre tais compensações em relação aos países centrais, assim como as províncias tendem a fazer em relação ao centro do país. […] Mas não faz sentido, ao menos em termos lineares: precursor tem de produzir eco, ou será para sempre apenas um singular, categoria que, salvo engano, foi postulada desde sempre por Aníbal Damasceno Ferreira (na época mesmo das primeiras montagens, a condição essencial de Aníbal foi defendida de público, com vigor e destemor, por Janer Cristaldo).[3]
Na introdução à Antologia do teatro brasileiro: Séc. XIX – Comédia, organizada por Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz (na qual Qorpo-Santo está presente ao lado de Martins Pena, Machado de Assis e Artur Azevedo, entre outros), João Roberto Faria anota:
Qorpo-Santo é um dramaturgo do nosso tempo, por permitir releituras no palco num nível de experimentalismo incomum. Por outro lado, é inegável que ele dialogou com as tendências dramatúrgicas que conhecia como leitor ou espectador. Assim, apesar de abordar conteúdos que faziam parte do universo da comédia realista, afastou-se da polidez de Alencar, ou da comédia refinada de Machado de Assis.[4]
Da novíssima safra de estudiosos, Maria Clara Gonçalves propõe desvencilhar-se de um Qorpo-Santo mitológico. Em vez disso, procura entendê-lo
não como um gênio, um vanguardista avant la lettre, um mero bufão disparatado ou um louco, mas como um homem de letras, sobre o qual influíram ideias estéticas e filosóficas de seu tempo e também motivações concretas que o levaram a conferir, em seu teatro, feições particulares ao repertório intelectual de que dispunha e às ideologias que defendia.[5]

                              
  A pena rumorosa do autor na montagem de ‘Santo Qorpo…’" Luis Paulot
O cenário é próspero para uma releitura da obra do dramaturgo, que ganhou interesse renovado nos últimos tempos, pelo menos no âmbito acadêmico. Se os seus 130 anos de morte, em 2013, passaram praticamente em branco[6], o ano seguinte viu a estreia, em Porto Alegre, do espetáculo Santo Qorpo ou O louco da província, que funde a vida e a obra do autor, recriando livremente no palco trechos do romance Cães da província (1987), de Luiz Antonio de Assis Brasil, e da Ensiqlopèdia ou Seis mezes de huma enfermidade, a monumental obra de Qorpo-Santo em nove volumes (dos quais são conhecidos apenas seis), que inclui sua produção teatral. A montagem de 2014 estreou no dia 14 de março, em temporada de apenas um mês, mas de alta carga simbólica, que assinalou a reabertura do Teatro Universitário – Sala Qorpo Santo, no Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, depois de cerca de seis anos fechado para reforma.
Santo Qorpo tem direção de Inês Marocco, conhecida na cena gaúcha por traduzir cenicamente, com o jovem Grupo Cerco, duas obras de Erico Verissimo – O sobrado (2008), baseada em O tempo e o vento, e Incidente em Antares (2012). Também reunindo um elenco de novos talentos, o Santo Qoletivo reinsere o dramaturgo no contexto do século 19, evocando uma Porto Alegre meio histórica, meio ficcional, na qual – seguindo o romance de Assis Brasil – a biografia de Qorpo-Santo é contraposta aos crimes da Rua do Arvoredo. O episódio é uma célebre lenda urbana porto-alegrense segundo a qual a população, na época, teria se alimentado de embutidos produzidos com carne humana decorrente de assassinatos (as mortes de fato ocorreram, mas não há evidências históricas sobre as linguiças humanas). A dramaturgia é assinada por Áquila Mattos, Jeferson Cabral, Juçara Gaspar e Naomi Luana.
Neste procedimento contextual, a montagem do Santo Qoletivo se distancia de Labirinto – espetáculo de 2011, com fragmentos de textos de Qorpo-Santo, ambientado pelo diretor Moacir Chaves e a Cia. Alfândega 88 nos anos 1960 (época da redescoberta do autor) – mas se aproxima da peça Dr. QS. – Quriozas qomédias (2005), do grupo gaúcho Depósito de Teatro e do encenador Roberto Oliveira, trabalho que também levava à cena o personagem Qorpo-Santo e horrorizou a crítica Barbara Heliodora, quem, por sinal, nunca foi muito fã do autor.
                     ‘Labirinto’, direção de Moacir Chaves com a carioca Cia. Alfândega 88 - Guga Melgar
Em Santo Qorpo, o consumo de carne humana é metáfora da sociedade moralmente viciada que Qorpo-Santo procura denunciar. Sua política, ainda hoje, é motivo de debate entre leitores e estudiosos: há quem veja em seus textos um elogio ao desvio da norma e há quem o entenda como um moralista acima de tudo. O espetáculo não procura reprimir esta instabilidade: está em cena um certo antecipador do abolicionismo (embora ele mesmo tivesse um escravo) e o misógino (que de fato sempre foi). Mais do que isso, ao elencar quatro atores para viver Qorpo-Santo em diferentes cenas, a diretora materializa um dos princípios do autor: hoje sou um; e amanhã, outro – título de uma de suas peças.
Trazê-lo ao proscênio na forma de personagem é expandir um procedimento que já era seu: ele mesmo se transmutou da vida para o texto em peças como O marinheiro escritor, na qual figura certo Leão (seu nome de cartório, como se sabe, era José Joaquim de Campos Leão) e Um credor da Fazenda Nacional, na qual se identificou com o papel-título. A apropriação de peças de sua autoria na textualidade do espetáculo é engenhosa. Além da inserção de cenas claramente retiradas de peças como Mateus e MateusaEu sou vida; eu não sou morteA impossibilidade da santificação ou A santificação transformada e Um assovio, outras citações se dissolvem disfarçadamente no roteiro, enriquecendo a experiência do público. Embora o trabalho seja uma defesa apaixonada da lucidez de um homem tido como extravagante em seu tempo, é repleta de comicidade a cena em que Qorpo-Santo enxerga Napoleão III, trazendo à baila uma oportuna interrogação: será que o louco é ele ou somos nós?
O cenário de Martino Piccinini é simples, jogando com poucos móveis, a exemplo das cadeiras (que remete sutilmente à peça de Ionesco), e a iluminação em chiaroscuro de Fernando Ochoa acentua a tragicidade da biografia de Qorpo-Santo em sua heroica luta para provar que não é louco, defendendo-se de acusação da própria mulher. Os figurinos de Rô Cortinhas evocam a época do autor, caracterizando os quatro atores que o interpretam com sobretudo escuro, bengala e cartola e trazendo certa elegância de época para todos os personagens. Se a jovialidade e certa inexperiência do elenco ainda estão presentes dois anos após a estreia, a força e a graça com que defendem seus personagens tornam a montagem uma experiência singular, assim como o homenageado.
.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.
[2] SANTO, Denise Espírito (Org.). Qorpo-Santo: miscelânea quriosa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, p. 13.
[3] FISCHER, Luís Augusto. Maluco provincial, inventor de talento. In: ______. Coruja, Qorpo-Santo & Jacaré: 30 Perfis Heterodoxos. Porto Alegre: L&PM, 2013.
[4] FARIA, João Roberto. Introdução. In: MATE, Alexandre; SCHWARCZ, Pedro M. (Orgs.). Antologia do teatro brasileiro: séc. XIX – comédia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, p. 50.
[5] GONÇALVES, Maria Clara. Dissonâncias do Qorpo: considerações sobre o status do teatro qorpo-santense no panorama dramático brasileiroAnais Abralic Internacional (2013), v.1, n.2. Disponível em: bit.ly/1RbEMY6. Acesso em: 19 mar 2016.
Ficha técnica:
Santo Qorpo ou O louco da província
Autoria: Roteiro livremente inspirado no romance Os cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil e textos de QS
Direção: Inês Marocco
Com: Áquila Mattos, Eduardo Schmidt, Gabriela Boccardi, Jeferson Cabral, Juçara Gaspar, Ketti Maria, Magda Schiavon, Naomi Luana e Rodolfo Ruscheinsky
Cenografia, arte gráfica e fotos de cena: Martino Piccinini.
Figurino: Rô Cortinhas
Iluminação: Fernando Ochoa.
Assistência de direção: Gabriela Boccardi e Magda Schiavon.
Dramaturgia: Áquila Mattos, Jeferson Cabral, Juçara Gaspar e Naomi Luana
Orientação musical: Adolfo Almeida Jr.
Criação e execução da trilha sonora: O grupo
Assistência na orientação musical: Eduardo Schmidt
Produção: Jeferson Cabral e Juçara Gaspar
Divulgação: Juçara Gaspar e Eduardo Schmidt

FONTE: http://teatrojornal.com.br/